sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Só há mudanças quando algo não muda.



Quando jovem, eu acreditava que entender e aplicar as novidades rapidamente, era algo a ser elogiado. Ideias, eu pensava, aconteciam para serem mudadas logo. Tinham prazo de validade bem curto. A estabilidade era amesquinhar o raciocínio. A mudança, eu entendia como uma necessidade vital dos novos tempos. A estabilidade, então, era sempre motivo de desconfiança.

Mas a questão não é tão fácil assim quando a observamos mais de perto. O que é mesmo a velocidade?  É a relação entre uma distância percorrida e o tempo de percurso. Então, precisamos fixar um ponto para observar o tempo que o móvel leva para percorrer uma distância. Para eu dizer que estou mudando velozmente (ou lentamente), preciso fixar um ponto para que possa me perceber em mudança. Somente após fixar referências para aferir a velocidade de algo, poderei afirmar que, em relação a ele, estou mais ou menos veloz. Questão simples de referenciais na física. O que quero dizer com isso?

Só posso aferir as mudanças se algo não muda.

Voltando ao primeiro parágrafo. Eu acreditava que a mudança e a velocidade são a verdade. O que parece ser mais verdadeiro ainda no século XXI. Porém, refletindo mais sobre isso, vejo que muitas coisas não podem mudar. Ou, pelo menos, não tudo ao mesmo tempo.  É preciso um pé no freio e outro no acelerador. As vezes mais um do que outro. A medida do uso destes pedais deve ser o bom senso. Eu só acelero o trem se tenho bons e imutáveis trilhos, se tenho eficientes e estáveis controladores de velocidade.

Aceitar a instabilidade perpétua como uma verdade em si mesma, ou seja, aceitar a volatilidade de todos os valores (morais ou éticos), não é um real incentivo a criatividade humana. A instabilidade plena limita o crescimento da humanidade do ser humano. Da mesma maneira que a instabilidade dos trilhos, limita a velocidade do trem.

Para que sejamos cidadãos, por exemplo, precisamos fixar no imaginário coletivo, que a cidadania é um valor inamovível em sua importância. Podemos até questionar o que é ser um cidadão, mas a importância de sê-lo, não.  Ter um ideal de justiça, perceber a importância da autoridade, ter o desejo de fazer o bem, tem que ser inquestionável! Claro que os conceitos se qualificam e mudam. Mas, não devemos relativizar a importância de tudo.

Mais um exemplo. A sociologia pode dizer que o conceito de família mudou e mudará. Porém, independentemente deste conceito, não poderá dizer que tanto faz ter ou não ter família! As famílias fazem a diferença no mundo afetivo das crianças. Relativizar a importância do cuidado familiar às crianças, é um desserviço civilizatório.

Sinceramente, nem saberia dizer o tanto de coisas que não podem mudar!

Penso que temos que refletir mais sobre os moralismos dos nossos avós, sobre as religiões e sobre tudo que cheira a conservadorismo.  Embaixo daquilo que não nos serve mais, poderá haver tesouros escondidos. Valores que sustentam a humanidade do humano.

As novidades são o ar que respiramos, é verdade. Feliz quem tem pulmões fortes para enfrentar o ar frio das coisas novas! Porém, os pés do sábio caminham no chão firme das construções morais historicamente construídas. Sem chão minimamente estável e correndo à plenos pulmões, o tombo está logo a frente!