terça-feira, 24 de outubro de 2017

Fica a dica: todos somos preconceituosos...



Podemos afirmar a priori que o preconceito é um juízo de valor feito antes do confronto com a realidade, ou antes da confirmação dos dados. É um juízo sem necessidade de justificativa. Preconceito é um conceito feito antes. Uma pessoa que permanecesse sem conceitos já feitos, não compreenderia o mundo que a cerca. Tudo seria, sempre, uma novidade conceitual.

Quando me refiro a “conceito feito antes”, indico as concepções ou as ideias sobre o mundo de quem vive, personalíssimas.  Cada mente, junto a seu contexto cultural, concebe o mundo que a cerca através da sua história.


Todos temos uma história de vida, e é nela que alicerçamos nossas escolhas. Quanto mais temos consciência de nossas escolhas e em que elas se baseiam, mais fácil é mudar nossos (pre)conceitos, ou até (por que não?) mantê-los. O fato de não ser necessário justifica-los sempre, não faz deles algo maléfico por natureza. Desde que o portador dos seus preconceitos tenha tolerância e respeito pelos preconceitos dos outros, não há problemas. A intolerância é o problema!

Eu não gosto de Funk. Eu o percebo como esteticamente feio. O percebo assim porque, com certeza, minha história de vida me conduziu a esta percepção negativa. E por que não mudo? Porque não senti necessidade. Porque minha opinião não faz nenhuma diferença na vida dos que gostam de funk. Simples assim. E também porque não me sinto intolerante. Apenas o percebo como algo feio. Sou superamigo de pessoas que admiram esse gênero musical. Gosto das pessoas, não gosto da música.  Neste exemplo, as diferenças de gosto geram diversidade e não desentendimento. Preconceitos todos necessariamente têm, mas nem todo o preconceito é discriminatório.

Não há como fazer confusão entre preconceito e discriminação. A discriminação acontece quando eu elejo um elemento característico da pessoa ou de uma cultura, e passo em função dessa característica, a ter uma atitude odiosa, perversa, agressiva, adversa, que provoca dor intencionalmente. Ou seja, o elemento selecionado por mim, discriminado por mim, passa a valer mais que a pessoa (esquecendo tudo o mais que ela é). Eu passo então a odiar e fazer as pessoas odiarem.  

Quero afirmar que preconceitos (e todos os temos!) podem se tornar discriminatórios; mas não necessariamente. Digo mais: há preconceitos que eu não mudo por preguiça, por desnecessidade, porque são insignificantes. Outros, eu os mantenho porque acredito neles e sou militante. Por exemplo, exalto a dignidade humana. Tenho mais em mim concepções insignificantes, que concepções para eu militar.

O “politicamente correto” também é um preconceito, ou seja, um conceito feito antes. E quando se torna relevante para a sociedade, mas também irracional e injustificável, é discriminatório.

Escrevo isso para reconhecer a inevitabilidade de ter preconceitos. Também para defender a liberdade de dizê-los, quando eticamente for possível faze-lo. Afinal, nem todos que dizem o que querem dizer, discriminam. O fato de eu ter em mim o conceito estético de que homem de saia é algo feio, não faz de mim um homofóbico, nem uma pessoa que seja contra homens de saia. Apenas diz da minha história pessoal, e que eu nunca vivi na Escócia. Só isso!

Fica a dica: todos temos preconceitos (conceitos feitos antes), mas nem todos são discriminatórios.